Mais uma vez o querido Fábio falou sobre sua saída da banda Andre Matos Solo, dessa vez mais interessante e revelações em primeira mão. Sem mais delongas, vamos a mais uma entrevista polêmica do
1) Por que você decidiu sair da banda Andre Matos Solo?
Foram diversos motivos diferentes que se acumularam com o passar dos anos, alguns mais agravantes, outros menos, fatores internos e externos que culminaram nesta decisão difícil. Eu me esforcei ao máximo para evitar isso, mas certas coisas foram à gota d’água. Esta é a primeira vez que vou contar certas coisas, e deixarei de contar outras, pois prezo muito a ética. Mas prezo também a sinceridade, muita gente tem me perguntado isso e eu sempre tento me esquivar da questão. Algumas decepções particulares surgiram até mesmo antes da “banda” ser obrigada a nascer, ainda nos tempos de Shaman, mas isto diz respeito somente a uma pessoa e este é um assunto para outro momento.
A primeira rachadura que aconteceu na Carreira Solo do Andre foi a troca do primeiro empresário para o segundo, após o lançamento do álbum Time To Be Free. Até então, estávamos todos felizes e muito empenhados em fazer a coisa acontecer, quase que como uma obrigação depois da sacanagem sem tamanho que sofremos. Aliás, a sacanagem foi sofrida porque as pessoas não têm determinação quando querem algo de verdade. Esse assunto do Shaman era para ser resolvido com uma facilidade enorme logo de cara, na hora, e a banda deveria ter continuado sem problemas, ou sem “o problema”. Mas rolou um “bundamolismo” generalizado por parte dos três que foram literalmente expulsos da banda pela qual eram os grandes responsáveis, deixando a coisa de presente na mão de quem… bem, de quem só cuidava dos negócios e nada mais. Ok, não vamos nos estender, esta história terá seu próprio fim, se é que já não teve… Pois bem, este segundo empresário já tinha um histórico duvidoso, mas mesmo após conselhos da banda para não fechar a parceria, a decisão não foi nossa. Foi a partir dali que começamos a sentir um afastamento crescente por parte do Andre e um descontentamento por parte da “equipe”. Sim, foi assim que o empresário chamou os grandes responsáveis pela composição, arranjo, gravação e execução de 80% das músicas do tal primeiro álbum “solo”. Na mesma conversa soubemos os novos valores de cachê, que além de muito desbalanceados em relação ao trabalho de cada um dentro da banda, beiravam o ridículo em termos de valor. E ainda fomos obrigados a ouvir a frase “Se não quiser, pode ficar em casa”, num ar que nos levou a crer que a única coisa importante para ele ali era o Andre mesmo, ninguém mais. Fizemos uma pseudo-turnê sofrida com este empresário, uma pessoa incapaz de sorrir até mesmo diante de uma boa piada. Clima “para baixo”, poucos shows desorganizados, e um tratamento digno de “funcionário”. É engraçado, mas no Shaman eu era um músico contratado e senti muito mais respeito por parte de quem administrava a banda do que nesta suposta “banda” que estava sendo formada. A segunda ideia “excelente” por parte do cara foi a gravação de uma versão acústica para uma música chamada Looking Back, que supostamente seria lançada como single e iria para um monte de emissoras de rádio. Levamos meses para concluir a faixa devido ao preciosismo que naquele momento era desnecessário, e a faixa não tocou sequer na própria rádio da qual o empresário era o dono! Durante todo este período em que estivemos trancados no estúdio, começamos a sentir uma espécie de boicote interno por parte de quem deveria agendar os compromissos e manter a coisa andando. Não rolavam mais shows, tudo estava parado. Posteriormente, soubemos de um plano pra lá de estranho entre este empresário e outro já bem conhecido para ressuscitar o Angra com o Andre nos vocais! Talvez a ideia fosse nos vencer pelo cansaço, nos convencer que a banda não iria funcionar, e fazer o Andre imaginar que a única saída poderia ser voltar para sua antiga banda. Um plano ardiloso! Este empresário não investia um centavo na banda, nunca, mas como soubemos estava disposto a desmembrar o problema com o nome Angra e bancar a volta da banda. Um absurdo, nos sentimos traídos.
Depois de muita conversa, o empresário foi afastado. Mas naquele momento grande parte do foco já havia sido perdido. Acabávamos de jogar fora um excelente álbum, devido à perda de sincronia com os subsequentes afazeres de promoção que fomos privados de fazer. Em dois anos de descuidos com a parte de marketing, o nome Andre Matos começava a perder a força, infelizmente. Teríamos que começar tudo de novo, mais uma vez, em uma área que estava começando a mudar em conjunto com a crise no mercado fonográfico e não permitiria tal falta de estratégia e planejamento. E estas omissões aconteceram o tempo todo… Uma banda se faz com várias cabeças pensando e várias pessoas trabalhando em sua administração, além da parte musical. É difícil para uma pessoa só querer abraçar todo este trabalho de administração, ainda mais o Andre que nunca precisou se mexer para isso na vida. Neste caso, sem um bom manager ou agência por trás, a coisa simplesmente não funciona. O que aconteceu nos períodos seguintes foi a “banda” tentando se reerguer, a passos bem largos. Acredito sem a menor sombra de dúvidas que se todos tivessem a oportunidade de colaborar nesta parte, as coisas teriam andado e seriam diferentes hoje, para a carreira do Andre e para nós também. Não se faz uma empresa apenas com o presidente, principalmente quando os “funcionários” constroem a empresa do alicerce ao telhado praticamente sozinhos, mas não podem opinar em sua administração.
Foi então que recebemos a notícia de que teríamos que gravar mais um álbum, às pressas, por pressão da gravadora japonesa, ou por “pressão de um advance em dinheiro”. Não se faz música sob pressão, isto também não funciona, e acabamos lançando o “incompleto” álbum Mentalize. Naquele momento, fatores pessoais levariam o Andre para ainda mais longe, literalmente. Com mulher e filho na Suécia, a sensação era de que cada vez mais o destino dele parecia ser para os lados de lá… Aliás, hoje em dia eu no lugar dele já teria ido para valer, ao invés de ficar voltando para cá e sofrendo em um país que nunca vai valorizar sua música. A ausência dele nos processos de composição foi bem grande… A gravação deste álbum foi um pesadelo para mim, que também estava sofrendo os piores períodos da minha vida toda devido também a outros fatores pessoais. Não me lembro muito bem destes dois meses de gravação, pois estava entupido de rivotril e anti-depressivos, mas tentei fazer o meu melhor como sempre. O problema é que as coisas também começaram a se descontrolar na parte musical, coisa que não havia acontecido no primeiro álbum. É de uma idiotice muito grande nos tempos de hoje respeitar as opiniões de uma suposta gravadora, principalmente quando a visão desta gravadora é antiquada e totalmente presa em um estilo de música que se não é bem arquitetado pode se tornar limitado e chato. A música mudou no mundo inteiro, tem evoluído em diversas vertentes, as pessoas passam a ouvir outra coisa quando você se repete. Com a faca e o queijo na mão como o Andre sempre esteve, dotado de uma criatividade ímpar e de uma voz excepcional, sem rabo preso com ninguém, como é que se deixa uma banda cair na mesmice? Por poucos trocados que irão durar alguns meses? E a carreira sólida formada antes? Não tem mais valor? É preciso pensar adiante. O respeito duradouro do público vem através de boa música, sempre, e isso estava sendo negligenciado. Além disso, o que também me deixou desgostoso com este álbum foram as deliberadas alterações de arranjo nas partes de teclado e, pasmem, alterações de timbragem no momento da pós-produção e mixagem, etapas realizadas na Alemanha. Alguns dos meus Hammonds, um dos poucos sons de teclado que se encaixam bem em heavy metal, viraram marimbas, por exemplo, e o arranjo original de Leading On tem teclados muito mais legais e bem elaborados dos que os que estão no disco. Outras faixas sofrem do mesmo problema. O próprio Rick Wakeman teve problemas deste tipo na gravação do álbum Union do Yes, um produto encomendado, enviando além do áudio as pistas MIDI abertas para total liberdade dos produtores. Segundo suas próprias palavras, ele não está naquele álbum, apenas seu nome. Citou na época até a existência de telefones para consulta com o dono da obra numa situação dessas. Hoje em dia a comunicação é ainda mais fácil… Nota-se uma diferença enorme de qualidade dos teclados entre o Time To Be Free e o Mentalize. Este segundo, na minha opinião, soa mesmo inacabado. Eu nunca entendi a razão disso ter acontecido. O Andre, como pianista também, deveria prezar pelo melhor. Eu não acredito que o gosto dele por teclados e o cuidado com a produção desta parte tenha diminuído de forma natural como podemos observar nestes dois últimos álbuns dele. Isso é no mínimo estranho… Pior é que não sentimos nem o cheiro do tal advance da gravadora, pelo menos não nós da “banda”. E acabamos enterrando mais um trabalho depois, pois não houve nenhum tipo de promoção e a sincronia foi novamente perdida.
Todavia, nós da banda prevíamos ao menos uma turnê mesmo que tardia, certo? Segundo a administração, era essa a ideia. Aqueles planos que você faz antecipadamente para o ano, deixando algumas coisas pessoais de lado, recusando convites de trabalho, coisas normais que qualquer um faz quando sabe que existe uma empreitada em vista e que esta deve ser feita com qualidade e profissionalmente… Iniciamos uma bateria de ensaios para mostrar ao vivo o que sempre tentamos fazer – shows de qualidade. Músicas novas foram adicionadas, coisas velhas foram desenterradas. Continuamos a nos empenhar. Para nós tecladistas, o trabalho é dobrado, pois além dos arranjos musicais difíceis a serem executados pelo cérebro e pelas mãos, temos a árdua responsabilidade de programar e timbrar os sintetizadores e demais aparelhos. No caso destes arranjos, é um trabalho enorme! Eu sempre fui o responsável por toda a parte de tecnologia envolvida por trás destes shows todos que vocês assistiram. Investi e reinvesti uma montanha de dinheiro nisso nesses anos todos, adaptando a aparelhagem de acordo com a necessidade de cada banda e turnê. Desde a época do Shaman, os ensaios também sempre foram feitos aqui no meu estúdio, gratuitamente. As gravações também sempre foram resolvidas com excelentes condições e deveriam ser creditadas e evidenciadas corretamente. Era uma maneira de eu apresentar mais um tipo de colaboração além do músico Fabio Ribeiro. Eu sempre me senti muito envolvido com todas estas bandas, desde o Angra, mesmo em uma posição de “side man”, talvez pelo meu amor incondicional à música também. Então sempre procurei colaborar como se aquilo tudo também fosse meu, por puro prazer de fazer a coisa do jeito certo, e também pela grande amizade que sempre tivemos. Eu sempre quis que a coisa fosse a melhor, que o produto final fosse da melhor qualidade possível. Nunca medi esforços para isso, mesmo nestes casos. Foi muito estranho começar a perceber que o Andre se tornava ainda mais ausente. É natural ter que viajar para ficar com a família, mas a inexistência da apresentação de uma estratégia de continuidade de trabalho para nós da banda e a estranha escassez de shows e de qualquer outro tipo de evento começou a deixar a gente com a pulga atrás da orelha de novo. E assim passaram-se meses, fizemos apenas alguns shows neste período. Um belo dia, esta maravilha tecnológica que é a internet me atentou para uma nova banda vinda de lá das terras frias, com o pomposo nome de Symfonia. Ao verificar mais a fundo, descobri que não se tratava de mais um dos inúmeros projetos paralelos informais dos quais o Andre costuma participar, mas sim de uma banda com pretensões sólidas, álbum já gravado e prestes a ser lançado, e turnê internacional prevista. Aquilo não nascera da noite para o dia, era o resultado de pelo menos um ano de trabalho. A grande atenção da mídia especializada sobre aquilo me levou imediatamente a crer que nós aqui simplesmente seríamos deixados de lado, definitivamente. E isso só não aconteceu desta forma porque o tal Symfonia foi um desastre. Eu mesmo nem sei explicar, conhecendo bem o Andre, onde ele estava com a cabeça de se meter numa fria daquelas. E, como disse o Rick Wakeman, existem coisas como “telefones” para que determinadas situações possam ser esclarecidas e resolvidas com antecedência, muuuuita antecedência… Afinal, “Andre Matos” agora é uma banda, ou não? Então, concluindo, qual seria a reação de alguém na minha posição em um momento como aquele, prevendo sabe-se lá mais quanto tempo de enrolação e pior – na dependência de alguém que perdeu o foco em sua carreira e não sabe mais para onde atirar? A reação foi a de qualquer profissional quando chega à conclusão de que a empresa para a qual trabalha já não é totalmente honesta para com quem se empenha em torná-la melhor – procurar outro emprego.
Mas, apesar das situações adversas, na verdade a maior parte do problema é que eu acho que o grande barato da música é a criação, assim como grande barato da vida é a evolução. Quando isso é interrompido e você passa a ser obrigado a fazer o que você não gosta, tudo perde a graça. Não estou falando só por mim, a grande maioria da banda estava determinada a seguir em frente com inovação. Mas quando a criatividade é oprimida e o dinheiro, que, aliás, é bem pouco, se torna mais importante ou necessário e você começa a se ver obrigado a viver somente de glórias do passado, aí acabou…
Eu estou sentindo uma treta!!!
Originalmente postada aqui.
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